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Colégio Júlio de Castilhos e a sua batalha pela sobrevivência

Considerada uma das escolas mais tradicionais do estado, instituição atualmente sofre com sucateamento e redução de professores e de matrículas


Marcelo Passarella

Porto Alegre 18 de junho de 2024


O colégio Júlio de Castilhos é reconhecido como uma das instituições mais tradicionais de ensino público no estado. Com mais de um século de história, a escola, atualmente localizada no bairro Santana, na Zona Leste da Capital, se consolidou como um dos mais importantes núcleos de mobilização estudantil e dos educadores no estado.


Contudo, a instituição que já abrigara mais de 5 mil alunos durante os anos 1980 hoje conta com sequer metade disso. No mais recente processo de matrículas do atual ano letivo, foram apenas 1 mil alunos inscritos. Essa redução expressiva, para servidores e sindicalistas, é um dos efeitos da negligência das gestões estaduais no segmento, que geraram o sucateamento progressivo do colégio nos últimos anos.


Uma das razões para esse processo foi o próprio peso social e político que o Julinho conquistou – sendo alvo até hoje de constantes políticas de esvaziamento que buscam anular os movimentos estudantis gestados no seu interior. Uma das principais lideranças da educação pública no Rio Grande do Sul, a diretora-geral do 39º núcleo do Cpers, Neiva Lazzarotto, comenta que isso foi parte de um projeto consciente de depreciação da escola.


“O Julinho sempre foi vanguarda na luta da educação, nas greves de professores e funcionários organizadas pelo CPERS Sindicato, na formação de lideranças políticas a partir de seu grêmio estudantil. Nas últimas décadas, foi feita muita propaganda contra o Julinho e houve um esvaziamento da escola. É preciso pensar em iniciativas políticas para retomar a ocupação do Julinho por inteiro. O que aconteceu não diz respeito aos profissionais que atuam lá, mas sim às políticas de esvaziamento da escola”, destaca.


Tesoureira do CPERS, a professora Rosane Zan iniciou sua docência no interior, na região da Missões, e destaca que “o Julinho sempre foi uma referência para todo o estado”. Além de recordar das mobilizações que ocorreram na escola, pontua que atualmente o espaço serviu como abrigo para famílias desabrigadas pela enchente e como centro de doações. “Ver o descaso frente à parte da estrutura do Julinho, que no último período não teve nenhum investimento por parte do governo Leite, só mostra o quanto esse governo vê a educação. Ele não vê como investimento, e sim como um gasto”, critica.


Uma situação que, conforme Rosane, atinge escolas em todo o Rio Grande do Sul e está entre as cobranças frequentes do Cpers ao governo estadual. “Em 2021, a gente visitou várias escolas no estado, até inclusive fizemos um dossiê e, na época, 600 escolas que tinham problema na sua estrutura ou na parte elétrica.” Ela conta que, em audiência nesta segunda-feira (10) com a secretária de Educação, Raquel Teixeira, a direção do CPERS chamou a atenção para a piora do quadro, visto que as inundações prejudicaram diversas escolas, afetando material didático e tecnológico e deixando 22 totalmente destruídas.

 

Julinho iniciou ano letivo com espaços interditados

 

Além do número de alunos reduzido, o ano letivo iniciou com falta de professores e com espaços interditados. Conforme a diretora Fernanda Schmidt Gaieski, três laboratórios localizados no segundo andar do prédio estão parados por conta do desabamento do teto, em função do temporal registrado em janeiro. Esses espaços – utilizados nas disciplinas de Biologia, Química e Física – já estavam ociosos há cerca de três anos. O motivo é falta de profissionais e de recursos para a limpeza e manutenção, o que agravou as condições precárias das salas.


“Nos corredores do segundo andar do bloco D, onde estão localizados os laboratórios, desabou o forro do teto, principalmente os do laboratório de Biologia.  Então estamos esperando a aprovação de uma verba extra para poder fazer a limpeza, retirada e recolocação desse forro”, explica.


A falta de repasses suficientes para dar conta das demandas obrigou a direção a priorizar obras mais urgentes em detrimento de adequações estratégicas para a ampliação do número de alunos e aprimoramento das condições de ensino.


“Eu trabalho na escola desde os anos 2000, e na época, existiam mais de 4 mil alunos matriculados. Porém, quando se deixa de investir em educação e quando se deixa de lado determinados setores da escola - e principalmente o que é público - a gente sabe o que acontece, os laboratórios que se tinha, toda a qualidade que existia, das aulas práticas, foi se perdendo ao longo dos anos”, desabafa Fernanda.


A ex-monitora Fátima Terres, que trabalhou nove anos na função, corrobora essa noção. Para ela, o Estado pretende utilizar o prédio para outros fins no futuro, diante da elevada especulação imobiliária da região.


“Sou do interior, sempre tive respeito pela instituição Júlio de Castilhos, teve ilustres alunos. Agora entra o lado político, o descaso dos nossos governantes é vergonhoso, sabemos ser um terreno valiosíssimo, acredito ser um somatório para a decadência total”, afirma.

 

Formato de trilhas dificulta aprendizagem de alunos, segundo professores


A falta de professores no início do ano letivo atingiu um dos níveis históricos mais elevados no início do ano letivo. Para se ter uma ideia, as aulas iniciaram com 86 profissionais em toda a equipe, número insuficiente para dar conta da demanda dos itinerários de formação impostos pelo Novo Ensino Médio desde 2022.


Faltavam docentes para pelo menos 68 trilhas de aprendizagem, o que invariavelmente prejudica o andamento das aulas. São 25 turmas do 1º, 2º e 3º anos nos três períodos: manhã, tarde e noite. Nas últimas semanas, porém após as constantes reivindicações de docentes, o quadro foi preenchido.


Contudo, o atual formato de “trilhas de aprendizagem” imposto pelo Novo Ensino Médio é alvo de críticas em função do aumento excessivo de disciplinas e a falta de formação específica para ministrar essas aulas.


“Com as trilhas, aumentaram os componentes curriculares e a gente tem que fazer uma distribuição em cima disso. A cobrança da SEDUC fica tensa porque eles cobram destalhes desnecessários para poder dispor de um profissional para que ele possa assumir (essas disciplinas)”, destaca Fernanda.


A vice-diretora e atual professora de História do Julinho, Paola Cavalcante Ribeiro – que antecedeu a atual gestão da escola – comenta que a carência de professores e outros profissionais da equipe pedagógica é uma dificuldade histórica que se repete a cada ano. Entretanto, a inclusão das trilhas no quadro de disciplinas agravou o problema, uma vez que não houve qualquer processo de formação de docentes para ministrarem aulas nessas modalidades.


“A gente carece de apoio de pessoas. A gente inicia o ano com o quadro de professores sempre faltando, principalmente nas matérias do Novo Ensino Médio. São disciplinas muito novas que os professores nem sempre estão apropriados e não tiveram uma formação específica, pois há uma fragilidade. A gente resiste de abraçar disciplinas e nichos de conhecimento que não fazem parte da área específica de conhecimento.”, comenta Paola.


Além da falta de docentes, a carência de profissionais suficientes para tarefas de manutenção de salas de aula, laboratórios e outras dependências do prédio é outro desafio a ser enfrentado diariamente pela direção da escola. Hoje, são apenas três serventes de limpeza que têm a atribuição de higienizar diariamente uma estrutura que contempla 48 salas de aula, banheiros, biblioteca, ginásio, quatro laboratórios, sala de recursos multifuncionais, sala multimídia e sala de robótica.


Ainda existem outros três profissionais que atuam com delimitação de função, ou seja, auxiliam também no serviço diariamente, mas com atividades restritas. A Seduc afirma que outro profissional já foi contratado, mas ainda não começou a exercer as atividades.


“Tudo é muito demorado e complexo. Estamos a 28 dias aguardando a servente que foi aprovada contratação”, afirma a diretora Fernanda Gaieski.


Atualmente, para preencher o quadro de profissionais que atuam em itinerários formativos no Ensino Médio, estão em andamento nove solicitações. Trata-se de uma solicitação de servente, uma de monitor, cinco de ampliação de carga horária nos componentes de “Empreender-se e Inovar para Sustentabilidade”; Língua Portuguesa; Linguagens Estruturais e Artísticas; além de uma ampliação e uma contratação emergencial em andamento para Estatística Básica.

 

Situação dos laboratórios expõe descaso com escola que é referência em robótica


A impossibilidade de utilização dos laboratórios da escola pode ser considerada ainda mais grave levando em conta o histórico da instituição de ensino no desenvolvimento de projetos ligados à tecnologia e robótica – sendo destaque em uma série de eventos da área nos últimos anos.


“Nós somos a única escola pública a participar de uma feira do Instituto Federal, ficamos em segundo lugar no Campeonato Marista de Robótica e assinamos um Termo de Cooperação com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul para trabalhar com automação. Além disso, vamos ter uma atividade ligada à Unisenac também nessa área de tecnologia”, relata a diretora Fernanda.


Fernanda destaca que esse patamar só foi atingido a partir do desenvolvimento de projetos em horários fora da sala de aula, nos quais o docente tem condições e tempo para trabalhar.


“Se eu não tivesse essas professoras com essa carga horária fora da sala de aula não teríamos atingido esse patamar, algo que a Seduc não enxerga e não apoia. No momento em que a gente tem isso para oferecer para o aluno, ele tem condições de desenvolvimento, e hoje a gente sabe que isso está fazendo parte da vida dos jovens e que eles precisam estar ali, pois têm condições iguais a de um aluno de escola particular. Está faltando a secretaria ir à escola e ver o trabalho dos alunos e professores, ao invés de cobrar por um computador a carga horária de professores”, lamenta. 

 

Seduc alega que mudança em processos de licitação vai agilizar obras


Questionada a respeito dos aportes necessários para garantir a plena operação do Julinho, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) afirmou, por meio de nota encaminhada via assessoria de imprensa, que está “ciente” de todas as demandas e “atua diretamente com a equipe diretiva, por meio da 1ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE)” para dar conta de todas as demandas.


Sobre as obras pendentes, a Seduc afirma que foram enviados recursos de R$ 115 mil correspondentes ao Agiliza Educação e o adiantamento de quatro meses da verba de Autonomia Financeira, que, no caso do Julinho, é de R$ 16 mil mensais.


A Seduc alega ainda que, após as reformas do temporal, restariam R$ 60 mil no caixa da escola, que poderiam ser utilizados nos consertos do teto dos laboratórios interditados e no conjunto de obras pendentes.


Porém, isso é desmentido pela diretora Fernanda Gaieski. Ela destaca que, além dos recursos serem insuficientes, a escola ainda possui despesas adicionais por conta do Núcleo Estadual de Jovens e Adultos (NEEJA) Menino Deus, que ocupa uma área no interior do prédio.


“Não temos essa verba de 60 mil no caixa da escola, pois as manutenções previam ser realizadas e ainda contamos com o NEEJA que foi deslocado de seu prédio, ocupa uma área dentro do Julinho e não participa das despesas. Mesmo assim continua recebendo verba como uma escola própria”, explica.


A Seduc afirma que “equipes da Secretaria de Obras Públicas (SOP) farão nova vistoria no local para acrescentar os itens mencionados pela equipe diretiva”.  A secretaria afirma que “serão verificadas alternativas para que a questão seja solucionada brevemente”, - por meio de aumento da verba do Programa Autonomia Financeira, por dispensa de licitação ou via Programa Agiliza Educação e tomada de preços pela própria direção da instituição”.


Ainda conforme a Seduc, a implantação das atas de registro de preço regionalizadas – que funciona como um “catálogo de serviços”, que ficará à disposição da Secretaria de Obras Públicas (SOP) para atendimento das instituições de ensino –vai designar uma empresa responsável por atender cada grupo de escolas, o que dispensaria a necessidade de novas licitações.


Nas últimas semanas, o Governo do Estado enviou uma verba de R$ 14 mil, - referente ao Projeto Agiliza Eventos Climáticos – que será utilizada para uma série de manutenções, dentre elas o conserto do forro do bloco D.


“A gente vai usar um pouco dessa verba para sanar esse problema e o restante para sanar outros problemas da escola. Claro que não é um valor expressivo, porque a escola tem o espaço físico muito grande, mas já ajuda porque podemos ir arrumando algumas questões que ficaram para trás”, informa a diretora Fernanda.

 

Escola foi um dos principais pontos de abrigo e acolhimento durante enchente

 

A escola Júlio de Castilhos foi dos locais que serviu como ponto de abrigo e entrega de suprimentos durante a enchente registrada no estado nas últimas semanas. Nesse período, as aulas foram suspensas para abrigar cerca de 130 pessoas desalojadas de diversos bairros da Capital, além de moradores de rua.


Foram cerca de 250 voluntários que se somaram ao trabalho de funcionários e professores que se dedicaram a prestar a melhor assistência possível durante a tragédia. Os abrigos ocuparam 14 das 42 salas de aula.


“Foi um processo muito importante para nós como escola, para cumprir o nosso papel social e educar, proteger as pessoas que no momento necessitavam. Valeu muito a pena ver as pessoas agradecendo termos aberto as portas da escola nesse momento, foi bem gratificante”, ressalta a diretora Fernanda Gaieski.


O colégio Estadual Júlio de Castilhos, foi transformado em abrigo no dia 5 de maio de 2024 para receber as pessoas atingidas pelas enchentes em Porto Alegre. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

 

Uma história de lutas e de formação política que gera novas lideranças


Em sua trajetória que completa 124 anos em 2024, o Colégio Júlio de Castilhos passou por uma série de processos históricos que geraram profundas transformações sociais no Brasil. O colégio que iniciou as atividades ainda no período da República Velha, também passou por duas ditaduras (Era Vargas e ditadura militar), momentos nos quais havia violenta repressão contra movimentos políticos e sociais no país. Mesmo assim, continuou sendo um exemplo a ser seguido na organização de movimentos políticos estudantis oriundos da classe trabalhadora.


Com o nome de Ginásio do Rio Grande do Sul, teve sua sede original localizada em um porão de um do Instituto de Engenharia de Eletro-Técnica. Foi somente no ano de 1908 que recebeu o nome de Júlio de Castilhos. Alguns anos depois, a sede foi transferida para o local da então faculdade de economia da UFRGS.


Na época, era considerado um dos mais sofisticados prédios de Porto Alegre. A fachada chamava a atenção por ser composta de dois obeliscos que representam as artes e as ciências.


Porém, um incêndio com causas jamais esclarecidas ocorreu em novembro de 1951. Com indícios de “sabotagem”, o sinistro destruiu totalmente o prédio e obrigou a colégio a ter diversas sedes improvisadas até o final da década de 1950, quando foi instalado no local utilizado até os dias de hoje.  Da sede antiga, restou um busto de Julio de Castilhos com dois grifos – que são mantidos até hoje no saguão do atual colégio.


Ao longo de sua história, o Julinho foi um dos centros da luta pela garantia de direitos e por mais investimentos na educação pública. Isso foi o estopim para a formação de importantes lideranças políticas e intelectuais gaúchas, como Luciana Genro, Leonel Brizola, Moacyr Scliar, Tamyres Filgueira e tantos outros.


Uma dessas lideranças oriundas do Julinho é a coordenadora licenciada da Assfurgs e pré-candidata do PSOL à vice-prefeitura de Porto Alegre, Tamyres Filgueira. O primeiro contato com a mobilização política despertou a sua vocação pela política.


“O Julinho foi um marco em minha vida porque foi o primeiro contato com a vida política organizada e isso fez muita diferença na mulher que sou hoje, enquanto mulher negra e mãe trabalhadora e pertencente à classe trabalhadora”, ressalta Tamyres.

Em pouco tempo, Tamyres se tornou líder de turma e integrou do grêmio estudantil, fazendo parte de diversas mobilizações sobre demandas importantes da comunidade estudantil e da sociedade em geral.


“Eu entrei no Julinho em 2004, quando o colégio estava voltando de uma greve, em abril. Ali foi o primeiro contato com a política.  Eu virei líder de turma e naquela época, os líderes eram de um conselho de alunos, que discutia as demandas do grêmio. Ocupar aquele espaço foi exercitar em mim algo que eu não fazia antes, que é pensar a escola, pensar a sociedade. Alguns meses depois, passei a ter contato com a vida política organizada e ter uma consciência mais crítica a respeito da sociedade e como sujeito de transformação da classe trabalhadora. Isso fez grande diferença em minha vida e faz ser quem eu sou hoje”, conta Tamyres. 


Foto de capa: SEDUC/RS

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