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Resenha - Kafka no cinema: reflexões sobre o filme Franz

  • há 16 horas
  • 3 min de leitura

Por Helena Ramos de Castro e Julia Silveira


O filme Franz, dirigido pela cineasta polonesa multipremiada Agnieszka Holland, estreou no Brasil no início de julho de 2026 e apresenta uma sensível homenagem à trajetória de Franz Kafka, escritor tcheco formado em Direito, amplamente reconhecido como um dos maiores nomes da literatura do século XX. A obra, ao retratar a vida de Kafka como funcionário público, constrói uma narrativa de caráter fantástico, entrelaçando a experiência cotidiana do agente estatal com o universo imaginativo que marcou sua produção literária.


A narrativa é permeada por sequências que rompem com a linearidade temporal e por momentos em que realidade, memória e imaginação se confundem. O cotidiano burocrático de Kafka é constantemente atravessado por elementos surreais, que remetem às suas próprias obras e ao funcionamento de sua psique. Em diversos momentos, a diretora reduz as fronteiras entre ficção e realidade, fazendo com que o espectador deixe a posição de mero observador para sentir-se inserido no universo kafkiano, como se também integrasse a obra.


O acompanhamento da trajetória de Kafka permite ao espectador conhecer as peculiaridades que marcaram a personalidade e a vida do escritor, como sua preferência por ambientes silenciosos, o hábito de escrever à mão, a relação difícil e conflituosa com o pai e sua constante introspecção, que são elementos retratados de forma cuidadosa ao longo do filme. Ao reconstruir a biografia do escritor, Holland apresenta a complexidade do homem por trás de sua intensa obra, oferecendo ao público um retrato mais íntimo e humano daquele que produziu alguns dos textos mais marcantes do século XX.


No universo jurídico, a relevância de Kafka ultrapassa os limites da literatura de forma singular. A obra do autor é uma referência para a reflexão sobre o funcionamento da burocracia estatal, a opacidade das instituições e a angústia do indivíduo diante de estruturas de poder. Não por acaso, a expressão "kafkiano" passou a integrar o vocabulário jurídico para se referir a situações marcadas pelo excesso de formalismo, pela desproporção burocrática e pela sensação de impotência diante de mecanismos institucionais incompreensíveis.


Essa dimensão também é profundamente explorada por Agnieszka Holland. Em uma das sequências mais marcantes do filme, Kafka realiza uma leitura pública do conto Na Colônia Penal, evidenciando a força perturbadora de sua escrita, bem como a dificuldade de seu público em compreender a profundidade e a originalidade de sua escrita. As reações de estranhamento e desconforto dos ouvintes revelam o abismo existente entre a genialidade do autor e a capacidade de seus contemporâneos de assimilar uma narrativa tão inquietante.


Durante a leitura, Kafka descreve, com riqueza de detalhes e, até mesmo, com uma linguagem visceral, a máquina de execução concebida em Na Colônia Penal. O mecanismo de punição retratado no conto constitui uma crítica ao exercício arbitrário do poder e à desumanização produzida por estruturas burocráticas que se legitimam pela observância cega a regras, em detrimento da justiça.


Essa narrativa dialoga com aspectos da própria trajetória de Kafka, marcada desde a infância pela relação severa com o pai, cuja autoridade deixou marcas profundas em sua formação, pela convivência cotidiana com a burocracia durante sua atuação profissional nas companhias de seguros em que trabalhou e pela percepção de que estruturas de poder podem transformar o indivíduo em mera peça de um sistema impessoal.


É justamente na tensão entre Franz e as estruturas que o cercavam que reside a força do filme de Agnieszka Holland. Ao acompanhar Kafka como indivíduo atravessado pelas relações familiares, pela burocracia e pelas imposições de seu tempo, a diretora constrói um retrato em que vida e obra se confundem. O universo kafkiano surge diante do espectador como uma experiência sensorial, marcada pelo desconforto, pela fragmentação e pela sensação constante de deslocamento que também definem seus textos.


Holland compreende que o aspecto mais perturbador de Kafka não reside nas situações absurdas que descreveu em suas obras,  mas no reconhecimento de que elas nascem de uma realidade profundamente humana. Talvez seja esse um dos maiores motivos pelo qual os textos de Kafka permanecem presentes sempre que um indivíduo se encontra diante de instituições poderosas cuja lógica interna parece se sobrepor à própria experiência humana.

 

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